pequenas coisas

há coisas aparentemente tão pequenas que nem sempre dou o devido valor, são mais que detalhes de um cenário, são mais que os figurantes daquela novela diária da existência, da nossa vida. são fenômenos que afetam, gratuitos, sem previsão.

desde um sorriso não ensaiado que me atinge quando ando pela rua, até aquela desfaçatez que escuto uma pessoa dizer, disfarçada de acaso.

dia desses, uma dessas “pequenas coisas” me atravessou, deixando um rastro que agora partilho com você, leitor.

estou saindo de um local onde trabalho, e passo de carro pela esquina do edifício, para alcançar a rua principal.

nisso, meu olhar é capturado por um ser, ali na calçada.

o homem tem alguma idade que pode variar entre 50 e 70, não há como saber, as feições são castigadas, o rosto tem uma feição de quem está em eterno susto ou desespero, tentando ver algo para além do invisível.

os olhos arregalados. os cabelos ruivos, barba também…

ele está em pé, apoiado com a ajuda de uma bengala feita em cano de PVC, e parece tentar caminhar para um lugar à frente. afinal, quem caminha, quase sempre, vai à frente mesmo… e não seria diferente com aquele homem que batizei de Rúbio em minha imaginação.

a caminhada possível não é para frente. cada tentativa de passo leva muitos minutos e o corpo todo dele treme. as pernas ficam abertas, com os pés para fora, feito os dos palhaços, formando quase cento e oitenta graus de ângulo.

logo, ao tentar o passo à frente…

…a bengala está de um lado, do outro lado, o pé suspende e treme no ar e gira, gira, gira, para lá e para cá…

…depois, o pé torce, ainda no ar, e… ao encostar o chão, foi parar no mesmo lugar onde estava…

e nenhum passo à frente é dado.

a caminhada é lenta, é o literal “andar sem sair do lugar”, ao menos aos olhos de quem de fora vê.

mas, afinal, o que me captura nessa cena de indizível sensação?

primeiro, me atingiu como um raio de choque a visão da fragilidade do movimento que, com tanto esforço, tenta, mas não sai do lugar.

e, depois, a falta de qualquer outro suporte que não a bengala e suas pernas trêmulas, ali, no meio da cidade. como isso é possível? parece um milagre.

inquieta e com minha alienada paz abalada, pergunto-me:

aonde ele vai?

como vai sair dali?

não há ninguém por perto para oferecer um apoio, uma ajuda, ver o que precisa?

tudo isso (e muito mais) me atravessa em breves instantes.

eu já havia passado adiante, já não o via mais, estava noutra rua, mas a inquietude não me deixava andar à frente… e minha rota era como a do homem, eu andava, mas não saía do lugar.

fui até o primeiro retorno possível, já me perguntando o que poderia fazer: levá-lo a algum lugar, de carona, era a mais imediata ideia que me ocorria. aí, voltei até lá.

após estacionar, fui até o homem, e ele estava, agora, acompanhado.

uma moça, transeunte e não conhecida dele, segurava seu braço do lado oposto ao da bengala, e auxiliava o caminhar – que ainda assim, era extremamente lento, continuava fazendo tremer e dançar o pé no ar, e, em vez de ir à frente, ia para um lado, ou para o mesmo lugar.

ele agora tinha companhia no passo trêmulo.

eu ainda estava um pouco desconcertada, pois não encontrava uma resposta imediata para minha inquietude, que dizia: o que eu faço, meu deus? preciso ajudar de alguma forma essa criatura que já faz parte de toda uma manhã da minha vida?

parei e me pesquei de volta dessa rede ou armadilha, antes de morder a isca que eu mesma lançara.

se eu me sinto na tentação de ter que ajudar alguém, do meu jeito e pronto, para resolver a angústia e inquietude em mim, será que estou ajudando a quem? a quem, meu deus?

… (silêncio que já responde à questão… ou assim suponho, leitor…)

nesse momento flagrante eu me vi, não como a cópia malfeita da senhora de calcutá, mas como um anjo mau e mesquinho, que, frente a uma situação alheia, não pode ficar em paz se não der um “empurrãozinho”, uma mãozinha, um jeitinho de colocar o dedo lá e depois dormir com a consciência “mais leve” pois já fez a boa ação do dia.

eeeei!!!!!

vamos parar tudo um momento?

não vamos ser insensíveis, nem egoístas, nem indiferentes ao sofrimento ou dor do outro.

tem mal em querer fazer algo para ajudar?

ter não tem, mas será que meu impulso imediato é realmente uma ajuda?

há situações de emergência em que não posso parar e ficar analisando a mim mesma, preciso é agir, o quanto antes!

esse será assunto pra outras conversas…

vamos voltar ao senhor caminhante.

a moça o estava segurando pelo braço direito. a bengala do lado esquerdo. o homem e a moça não saíam do lugar.

ahhhh! esqueci de contar, havia duas outras moças, sentadas na beirada de um jardim, apenas olhando, com ares perplexos.

fui até o homem e a moça do braço direito.

perguntei:

– vocês gostariam de alguma ajuda?

o senhor rúbio mal conseguia proferir palavras. tartamudeava e saíam sílabas com muita dificuldade. mas ele conseguiu mover o braço da bengala e exalou uma respiração com tanto cansaço, que a moça logo me fala:

– ajuda se você segurar pelo outro braço.

lá fui.

tentei alguma conversa, ainda, perguntar aonde ia o senhor.

ele ia até um ponto de ônibus, ali logo a pouco mais de 15 metros. ele ia ao centro da cidade.

logo fiquei em silêncio. aquietando minhas questões e aprendendo que, afinal, eu não o estava ajudando, era outra coisa, e que, ainda assim, poderia estar ali, junto, na caminhada, sem precisar levar pra cá e pra lá, apenas compartilhando essa dança trêmula, essas respirações tensas e intensas, e também a cegueira que, até ali, ainda não nos dava seus sinais.

levamos rúbio devagarzinho, mas um pouco menos devagar do que ele ia andando até então, mal ou bem, demos juntos, os três, uns vinte passos adiante.

chegamos ao ponto do ônibus, perguntamos se ele queria sentar.

mal ouvindo a pergunta, ele vai se deixando sentar, entregando-se aos nossos braços, e, quase vai ao chão, pois o banco estava um pouco mais à frente. antecipamos a pergunta alguns segundos e não contamos com a resposta imediata, de alguém já cansado de caminhar. mais fichinhas caindo aqui e ali, trilim-trilim-trim (ufa!) e, afinal, ele não caiu!

sua respiração era muito difícil, cansada. e, numa conversa possível, soubemos que ele não enxergava quase nada também. e que ele ia até o centro almoçar. e que ele conseguia almoçar pedindo e juntando:

– mo-e-dii nha! mo-e-dinha! mo-e-dinha!

ficamos alguns minutos ali, ainda, a moça foi embora, e eu, em vez de falar, fiquei escutando aquelas palavras e sílabas dificilmente pronunciadas. ao fim, calamo-nos, e nos despedimos, com algum gesto indizível e difícil de descrever. talvez o nome seja abraço, ou quem sabe esteja mais para um verbo, uma intenção de a-braçar, de abrir os braços, aqueles que acompanharam a caminhada, e de dar um adeus que, ao abraçar, também liberta.

ficou para mim, uma sensação de que não somos ajuda nem somos ajudados, ou somos ambos, ou talvez nenhum dos dois.

ao estar com o outro, independente do ritmo, firmeza ou fragilidade da sua passada, ele e eu somos espelhos, somos irmãos, e nada nessa relação genuína, quando desvelada das máscaras, vem de uma hierarquia superior, onde um é mais e o outro menos.

aprendi com o senhor rúbio a humildade e o respeito. aprendi a agir, e não a reagir. a confiar na vida, mesmo com tantas dificuldades, tristezas e desafios. aprendi a dar passos.

 

 

1 thought on “pequenas coisas

  • Oi, minha querida! Gostei muito do texto mas tenho algumas observações a fazer. São elas: pra que questionamentos sobre se era ajuda ou não. Claro que estavas ajudando, e não estavas sendo nenhum anjo mau. A partir do momento que te chamou atenção este senhor e vieste até ele já estavas inciando tua ajuda.
    “ficou para mim uma sensação de que não somos ajuda nem ajudados, ou somo ambos, ou talvez nenhum dos
    dois”, isto me parece filosofia. Até desnecessário no teu texto. A não ser que eu não tenha entendido algo entrelinhas. Gostei muito da tua atenção a este pobre senhor e a ajuda que dispensaste ao mesmo.
    Foi uma ajuda sentida e verdadeira, pois ao veres este senhor, estacionaste teu carro e voltaste para ajudá-lo.
    Evita muitos questionamentos.
    Beijinhos da mãe!

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