Diga-se (as aspas que nos aproximam)

Bauman dizendo Wittgenstein: “Nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer” (e dizendo por que não se justifica ‘quebrar’ um único ser humano para fazer qualquer ‘omelete’). Nabokov dizendo a humanidade de Smurov, ao cumprimentar o seu agressor antes da briga já perdida: “(…) e minha mão estendida, condenada a encontrar um vazio, e prevendo esse vazio, mesmo assim procurou completar o gesto”. Sevcenko, menestrel, dizendo a liberdade e onde a encontrar para além do medo: “Ouça o que diz o mar, Interrogue as montanhas” (Theodore Zeldin, dizendo como o homem se deixou escravizar pelo medo da liberdade). Nhaná, dizendo um choramingo por Cabeludinho, que foi à cidade estudar e ‘disaprendeu’ tudo: “ — Tá perdido, diz que negro é igual com branco!” (Manoel de Barros).

Lucas dizendo a vida de Dona Eulália: “olhar seco, olhar seco. D. Eulália queria ser feliz. ela não era (…) seu caminho desapareceu para ela.” Eva Schloss dizendo a dor do holocausto: “só adianto que perdi os dois e que, mesmo que você me conheça hoje como uma senhora, parte de mim ainda é aquela menina de quinze anos que os ama, que sente saudades e que pensa neles todos os dias” (setenta anos depois da morte do pai e do irmão, separados para sempre dela e da mãe nos campos de Auschwitz). Galeano dizendo a felicidade da desmemória, que ele não deseja: “O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz, porque não tem, ainda, nenhuma memória.”

as ondas do dizer só se propagam ao infinito

grafite-mosquito, lambe lambe, em tinta branca, no tapume preto, aí pela cidade, dizendo a ironia da delação não premiada da vida: “Eles foram por ali =>”.

Criança, dizendo seu dilema existencial: “Pai, quando eu for adulto será que vou virar um ser vivo?”. Chico dizendo Beatriz, e a divina comédia da vida, do chão ao céu e do céu ao chão: “Diz quantos desastres tem na minha mão. Diz se é perigoso a gente ser feliz.” Gil dizendo Drão: “Os meninos são todos sãos. Os pecados são todos meus, Deus sabe a minha confissão”. Homem, dizendo Deus, e sobre todas as coisas: “Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado pelo amor de Deus” (Chico Buarque).

Rodriguez dizendo o não abandono de quem tem “um pouco de amizade e um pouco de verdade”: “Mi unicornio azul ayer se me perdió. (…) Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel”. Quintana dizendo adeus antes do adeus: “Um dia o meu cavalo voltará sozinho…”

Dizer… preencher o estreito feixe da vida com pequenos espaços… —  eu me dizendo, desdizendo, redizendo…

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