Silêncio, por favor!

A chamada não é minha, mas de Paulinho da Viola, que continua: “(…) Quem sabe de tudo, não fale, quem não sabe nada se cale (…) Porque hoje eu vou fazer, ao meu jeito, eu vou fazer, um samba sobre o infinito”.

O mais elegante dos bambas do samba do Brasil me faz lembrar um dos requisitos indispensáveis para um bom músico: acolher e adentrar o silêncio. Aliás, músico ou não, qualquer ser vivo precisa parar e silenciar. Mas é tão lugar-comum falar sobre o silêncio, que, caso não me silencie um pouco, corro o risco de trazer mais do mesmo, ou seja, mais barulho e ruído inútil, lixo despejado em forma de texto a você, leitor.

Silenciar não se ensina, não se aprende, não se transmite, apenas se experiencia, ou vivencia. Procure lembrar momentos nos quais você não sentia qualquer anseio. Quando sentia estar quase vazio, vazio de vontade e de necessidade. Algo que religiões e outras abordagens chamam de paz interior, inação, plenitude… Pouco importa o nome, se você já viveu, poderá reconhecer e, caso sinta saudade, pode tentar resgatar intimidade com o seu silenciar. Sim, é muito difícil, ainda mais com os frenéticos bate-estacas da contemporaneidade, estar ou manter-se em silêncio, sem ruídos externos ou internos.

Uns meditam, oram, realizam práticas físicas, artísticas, terapêuticas, para manter-se limpos dos invasores do silêncio.

Uns precisam sair de onde estão, buscar um lugar, um canto, um retiro, tudo isso para silenciar.

E, para outros, apenas medicamentos e outras drogas permitem chegar lá.

Infelizmente, o silêncio não é de graça, pois estamos a todo o momento sendo atacados vorazmente por vozes e exigências inquietas e ansiosas: “vamos lá, mais um pouco, compre mais, ganhe mais, divirta-se mais, coma mais, seja mais, fale mais, mostre mais, e outros mais-mais”.

Que fazer com isso? Ceder às vozes ou resistir a elas? Difícil um ou outro, pois certas vozes já lhe pertencem, estão como alienígenas de filmes, dentro de você, do seu corpo, da sua entranha, da sua alma até, alimentando-se de suas neuroses.

Com alguma ajuda, e certa dose de coragem, você pode até encarar o alien e deixá-lo esgotar seu falatório, a fim de encontrar alguma paz. Mas, caso ainda não seja possível essa combinação terapêutica para o silêncio, inspire-se um pouco no Paulinho da Viola, e encontre sua “pausa de mil compassos, para ver as meninas e nada mais nos braços”. Tome fôlego (pouco), solte o ar (muito) e … pause-se!

Nota: A música citada é: Para ver as meninas (Paulinho da Viola-1971) e foi regravada por Marisa Monte (2000).

(publicado em 31 de março de 2014, no Jornal Sem Censura – Araranguá-SC)

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