Como você está?

Quando nos tornamos reféns das redes sociais

Esses dias, conversando com um amigo, me contou que, num dos grupos de whatsapp em que participa, algumas pessoas estavam com problemas graves de saúde e outras questões difíceis, e todo o grupo sabia dessas condições. E que, passados os dias, as postagens e mensagens do grupo eram 110% do tipo: memes e vídeos engraçados, coisas e textos repassadas de outros grupos e redes, todos impessoais. Até que ele falou algo assim:

– Gente, as pessoas A, B e C não estão legal, e vocês ficam aqui postando essas coisas no grupo, e sequer perguntam: “A, como você está?”, “B, você precisa de algo?”, “C, você melhorou?”

Aí, em poucos segundos, começa a aparecer no status do grupo:

“D está digitando…”, “E está digitando…”, “F está digitando…”

Qual o caminho para as redes serem conexão e potência de encontros reais?

E, em seguida, as pessoas começam a se colocar, a falar umas com as outras, D com A, com B, com C, com E, e por aí afora, coisas da vida de cada uma.

Algumas delas, pediram desculpas, não tinham noção do que estavam fazendo, ou deixando de fazer. Disseram que se importavam com a outra, e mudaram a forma de agir. Não sei quanto tempo isso durou, mas muitas pessoas se sentiram agradecidas, vistas, lembradas, importantes para as demais do grupo. Creio que até foram se visitar, tomar café, e buscaram o encontro ao vivo.

Essa pequena história real não é para apontar o dedo na cara de ninguém. Afinal, quem, dos usuários de redes sociais, está imune às viralizações, à ânsia de compartilhar aquele texto, vídeo, imagem, link, dica, mensagem do guru, piadinha, receita de bolo, ou o que quer que seja, com seus contatos?

Afinal, é muito mais “fácil, divertido, e simples” repassar essas coisas, do que realmente perguntar ou dizer como a gente está. E por isso os consultórios de terapeutas e médicos psiquiatras continuam com fila de espera. Mas será que isso está nos nutrindo ou apenas deixando a vida mais morna, mais kkkk, mais reduzida ao repertório de emoticons das redes?

Quantos espectros de emoção e expressão eu perco quando me reduzo a um emoticon?

O que parece estar ocorrendo, com todos nós — e estou me incluindo, viu, gente? — é como se um ser alienígena e insensível tomasse conta dos meus dedos e olhos e operasse em automático, diante de uma tela de celular ou coisa que o valha.

As conexões incríveis, que podemos gerar, manter e ampliar, com os recursos tecnológicos são, sem dúvida, recursos poderosos de interação, inspiração, partilha. Mas, por um certo vício, ou até pela necessidade de nutrir a mente estressada do dia a dia, com coisas bobas, que deixem a gente relaxar, e esquecer os problemas próprios e os “dos outros”, a gente se perde e vira refém da superficialidade das redes.

Nesse ponto em que estamos, precisa de algum esforço nosso ou chacoalhada de alguém, para voltarmos ao mundo humano. Humano é o ser que, sozinho ou isolado no individualismo, já teria sido extinto há milhares de anos. Humano é o ser que, se transporta para além dos instintos, sem abandoná-los, e um dos instintos é a necessidade de contato, de proximidade, de afeto, de comunidade. É sobrevivência.

Estou atentando, a cada dia, para minhas ações — presenciais ou virtuais — e, nem sempre gosto do que vejo, do que percebo. Ainda assim, nutro um esforço para escapar de minha sombria indiferença, de minha necessidade de proteção, e de tantas máscaras. Um dos caminhos que me tem ajudado é criar e escrever, falar a partir de mim. O outro é buscar contatos reais, dentro das minhas relações próximas e, aos poucos, ampliando para pessoas e grupos “desconhecidos”.

E, vocês? Querem partilhar como têm vivido essa interação e participação nas redes? Quais os “esforços”, as atitudes, ou as chacoalhadas estão fazendo sentido em seu caminho?

2 thoughts on “Como você está?

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