Sombra

Nunca me lembro de seguir aquela recomendação e sempre bebo litros de água até poucos minutos antes de dormir.

Agora vou tateando o escuro, não quero abrir bem os olhos para não acordar de vez aquela maldita insônia que está sempre espreitando.

Chego ao banheiro… o jato forte e longo me lembra que a bexiga é elástica, mas não é pra abusar.

Na volta, ainda vou até a pia, e, atração fatal, o espelho me convida a abrir um pouco os olhos.

Metade sombra em meu rosto, e uma pequena faixa de luz penetra por alguma fresta entre as velhas cortinas da janela da sala e visita a outra metade do rosto, no espelho.

Olhares — eu e essa coisa refletida e bruxólica no espelho nos encaramos.

Vejo nada da minha criatura do dia a dia, vejo sombra, inferno, susto, arrepio do horror… e beleza.

O diabo me sorri, está ali, tenho certeza. Estou ali, sou, somos.

Dentes pontiagudos, queixo anguloso, um meio sorriso provoca e convida.

Fecho os olhos, e ainda estou vendo.

Atrocidades, medos, vergonhas, iras, invejas, desgostos, miséria, violência, dores, horror, maldade… tudo em mim.

Sombra — muita — e um pouco, quase nada de luz. Tudo em mim.

Circle Limit IV — Escher

Volto a andar, para longe do espelho, muito devagar.

Olhos abertos, fechados, ou ambos, nem sei.

Chego a um lugar, será meu leito desta noite ou meu leito de morte?

Deito, e a criatura diabólica também está ali.

Agora ela me olha, cuida de mim, está com um sorriso satisfeito.

Nada mais é estranho, nada assusta.

Eu a vejo agora, e nos reconhecemos, não nos faremos mal.

Somos irmãs, mãe e filha, amantes, amigas, somos o céu e o inferno, e só.

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