Meditação do Nariz

Foi à noite. Foi na madrugada, quando, por alguma razão, deveria estar dormindo… ‘só que não’.

Após duas semanas tomando banhos de espirros em série — prenúncio dos capítulos: “Rinite”, “Resfriado”, “Gripe” — deitei e estava iniciando aquele sono bom, uma trégua, um passo para a cura.

Lia, antes de dormir, um livro sobre o sono bom… e a gostosa entrega ao sono bom e profundo começou.

 

Quarenta minutos de sono bom e…

BOOM!

O estrondo era o pior despertador que já ouvi.

Coração acelerou, susto, o barulho antecipou qualquer névoa de um pesadelo que esperava seu momento. Uma bomba?

Não…

Batida de carro violenta, destruição do portão e de outros carros, trajetória errante feito bola de bilhar pela curva, vozes que acordaram, guincho…

Ufa! Não foi grave, foi só um susto.

Gravidade: você já era, sono bom!

Minutos rolando na cama.

Não dava mais, era impossível dormir, era aceleração, mente, era dor, era falta de posição para deitar, era caos, era o lado B do sono bom.

Levantei, escuridão e ruídos.

Na rua, os roncos dos motores, na cozinha, o ronco do motor da geladeira insone.

Água, respirar, sentar, meditar.

Num ímpeto sem explicação, ao fechar os olhos e respirar suavemente pelas narinas meio congestionadas, comecei a criar aquela meditação…

Sou o meu nariz…

Repassei cada ação e também inércia, cada função, sensação…

Filtro o ar, aqueço o ar, preparo, inspiro, exalo, sinto odores, horrores que não tenho como bloquear…

Sou aberto, tão aberto, atento, sou porta para o prazer sensual do aroma, do instinto, do ritmo, da estação, sou cão, farejo o perigo e o nojo em mim e no mundo…

Tornei-me o nariz, centro do rosto, ponto médio, fora e dentro, entre o mundo de cima, e o mundo de baixo.

Aquela estranha e prazerosa meditação foi abrindo e dilatando minhas narinas, a mucosa acordando, descongestionando e despertando do bloqueio doente.

Todo o meu nariz era um só comigo, eu era aquele mundo nasal e suas interações.

Senti quase lágrimas nos olhos ao respirar, ao ser o meu nariz.

A ligação das coisas, das secreções, dos fluidos e do ar foi enxaguando e desembaçando minha visão.

Olhos fechados que podem enxergar… e respirar…

O corpo todo, a sensação, toda, síntese de tudo num nariz. Ó, céus!

Eis aí, uma nova meditação.

A perturbação do sono bom me deu de presente a meditação do nariz. E estou, desde então, livre da chuva de espirros que aguavam.

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